Política
Ex-MAI vê "componente política" na ação policial e risco de instrumentalização na PSP
O antigo ministro da Administração Interna Eduardo Cabrita defende na RTP Antena 1 que a PSP não se deve deixar instrumentalizar. Para o ex-governante socialista, o Governo tem contribuído para o clima de violência dos últimos dias em redor dos protestos pela habitação, apontando ainda que, depois da carga policial deste fim de semana, há na decisão de intervir "uma componente que é de decisão política".
Eduardo Cabrita, ex-ministro com a pasta da administração interna, assume que a Polícia de Segurança Pública (PSP) corre o risco de ser instrumentalizada no debate público à volta dos protestos pela habitação. "Vejo com muita preocupação esta instrumentalização da PSP por parte de uma orientação que pretende distrair aquilo que são manifestações pacíficas e legítimas", considera na RTP Antena 1.
Para o antigo ministro, o debate transformou-se numa questão de ordem pública em vez de serem abordados os problemas da habitação. Após a intervenção policial que aconteceu em Lisboa e no Porto na noite de sábado para domingo, que resultou em 31 detidos e 33 feridos, Cabrita considera que é preciso "defender a imagem e o prestígio que a PSP tem".
Salienta por isso nesta entrevista à rádio pública que é necessário "não deixá-la instrumentalizar" por "visões inspiradas pelo desejo de reforçar restrições de liberdades fundamentais", dando casos de Itália e de França.
Questionado sobre quem está a instrumentalizar a PSP, Eduardo Cabrita responde com uma "oscilação" nas declarações do Governo sobre as manifestações. Reconhece "bom senso" do ministro das Infraestruturas e da Habitação, Miguel Pinto Luz, que mostrou à RTP Antena 1 uma "enorme preocupação" com as manifestações e reconhecia "dor" da população nos protestos, mas observa "rastilhos de apelo à violência" em declarações do ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, ou de deputados do PSP e do Chega.
Para o antigo governante, a ação policial na noite de sábado para domingo foi desproporcional e, quanto a uma eventual intervenção política na operação da PSP, o ex-ministro da Administração Interna (MAI) admite que o Governo pode ter tido influência na forma da polícia intervir.
"Na decisão de intervir ou não, há uma componente que é de decisão política", começa por reconhecer, apontando que, no passado, "as opções foram sempre pelo primado dos direitos fundamentais". É aqui que encontra um "problema de crise de autoridade" no atual MAI, Luís Neves, considerando "muito grave" na área pela qual é responsável.
"Há aqui uma pretensão, pelas piores razões, de dar uma imagem de pertença à autoridade que é reveladora da fraqueza em que hoje está o Governo", frisa Eduardo Cabrita, defendendo existir um desvio de atenções, mas sublinhando que "o problema são as rendas, não as tendas".
Ainda sem ter reagido à carga policial, Cabrita espera que o Presidente da República, António José Seguro, "chame o primeiro-ministro a esclarecer as suas responsabilidades", para que Luís Montenegro respeite a Constituição e o direito de reunião e manifestação, refere.
Entrevista completa de Eduardo Cabrita à RTP Antena 1
Brandão Rodrigues vê silêncio "problemático" de Montenegro, Nogueira Pinto considera "perigoso" alegar ordens políticas
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O antigo ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues também espera uma reação do Presidente da República, mas aponta também à falta de resposta do primeiro-ministro. O ex-governante classifica mesmo de "problemático" o silêncio de Luís Montenegro sobre a carga policial na madrugada de domingo.
Quanto à força exercida, "perante aquilo que vimos, considero inteiramente legítimo dizer que há razões sérias pelo menos para considerar que a proporcionalidade pode ter sido ultrapassada", considerou Brandão Rodrigues na rubrica Nem Mais, Nem Menos, do Programa da Manhã na RTP Antena 1.
No mesmo espaço de opinião esta segunda-feira, passadas mais de 24 horas da carga policial, Teresa Nogueira Pinto mostrou acreditar que Luís Montenegro vai falar em breve. A responsável pela pasta da cultura no governo sombra do Chega critica posições como a de Eduardo Cabrita: "Acho muito perigoso dizer-se que a polícia obedeceu a ordens políticas".
"O país é um Estado de direito, portanto a polícia atua de acordo com leis", refere Nogueira Pinto, considerando que a PSP "não atua de acordo com a vontade de quem governa".
Teresa Nogueira Pinto deixou críticas também à cobertura mediática dos acampamentos de Lisboa e do Porto, defendendo que tem existido um "Big Brother" em seu torno em vez de falar dos problemas da habitação.